Profissionais, não heróis

Em momentos de crise é normal que a sociedade busque heróis e, com a popularidade da Lava Jato, é natural que esse papel seja atribuído ao juiz Moro e aos procuradores.

Eles fazem mesmo um excelente trabalho—mas heróis não são e nem podem ser.

Ao tratarmos esses profissionais como heróis, caímos no erro de politizar sua atuação. Isso não só serve para alimentar falsos discursos de perseguição política (como no caso de Lula), como denigre e até compromete seu trabalho, pois abre a suspeição de que agiriam de forma política e não técnica. Caberia a eles, então, manter certa discrição, enfatizando o caráter técnico de suas ações e permanecendo longe do jogo político. No entanto, não é o que vemos—pelo contrário: eles têm usado a Lava Jato como plataforma política, alimentando o que se tornou quase uma seita.

Suas atitudes políticas vão desde apresentações espetaculosas (como o famoso Power Point) até participações na imprensa e em redes sociais (como a página “Eu MORO com ele”, da esposa de Moro, e inúmeros vídeos e tuítes dos procuradores). Seu discurso messiânico, em que pregam sua “missão” de depurar o país da corrupção (que seria a raiz de todos os males) é digno de militantes, e tem como efeito a criação de uma espécie de petismo às avessas, no qual qualquer um que critique algum aspecto da Lava Jato se torna um vilão.

Essa politização também gera danos institucionais. Ao taxarem todos os políticos de corruptos, usurpam a legitimidade do Congresso para legislar. Tentam impor uma agenda corporativista, pressionando pela aprovação de leis que os favorecem (notavelmente as “10 medidas”, que incluíam absurdos) e pela derrubada de projetos que desaprovam (como as reformas trabalhista e da previdência, que cortariam alguns de seus privilégios). Querem ser um Poder dos Poderes, definindo de acordo com seus interesses o que aqueles que são de fato Poderes podem ou não fazer.

Procuradores e juízes têm função importante, mas técnica—e isso tem que permanecer assim, pois seu papel institucional já lhes dá uma grande concentração de poder. O uso político desse poder pode parecer positivo quando fazem coisas com as quais concordamos, mas nada garante que vai ser sempre assim, já que eleitoralmente não prestam contas a ninguém. Como cidadãos, é válido que queiram atuar politicamente—mas que o façam segundo as regras do jogo, concorrendo a cargo eletivo e obtendo a legitimidade do voto.

Fonte da imagem: Facebook

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