Protesto de Março 2016 na Paulista

Retrospectiva 2016: nem tudo foi um desastre (mesmo!)

É inegável que 2016 foi um ano complicado e que deixou em muita gente uma sensação de pessimismo ou apatia quanto ao futuro do Brasil. Mas, se respirarmos fundo, dermos um passo atrás e olharmos o ano no retrovisor, podemos ver que, apesar (e até por causa) das crises, 2016 trouxe algumas mudanças bastante positivas, sendo uma das mais importantes a quebra de certos tabus.

Um dos principais tabus que foram quebrados veio no campo ideológico: liberalismo deixou de ser um palavrão e voltou a ter sua conotação original de valorização da liberdade individual, tanto no sentido social quanto no econômico, de defesa do livre mercado. Liberal virou cool, com muita gente (incluindo, por incrível que pareça, muitos jovens) já se assumindo sem vergonha alguma e sem qualquer medo de ser chamado de fascista ou outros adjetivos por ignorantes raivosos. É verdade que ainda falta certo amadurecimento à nossa recém-nascida “direita transante”, que às vezes peca por excesso de dogmatismo e ingenuidade ideológica, mas só fato dessa opção ter surgido no menu já é uma saudável adição a um cardápio político que até então só tinha variações do mesmo prato.

Em um campo mais prático, a realidade imposta pela crise política e econômica nos forçou a tocar em antigas vacas sagradas e vespeiros aos quais ninguém até então ousava chegar perto, como a dolorosa, mas necessária, reforma da previdência e a modernização das leis trabalhistas—ainda que ambas infelizmente continuem bem mal compreendidas por grande parte da população. A crise também fez com que muita gente finalmente percebesse que dinheiro público é finito e que precisamos, portanto, fazer escolhas difíceis sobre como ele é gasto. Com isso, passou-se a questionar quais serviços são realmente essenciais e quais devem ser prestados obrigatoriamente pelo Estado. Essa discussão é a quebra de um grande tabu, já que até então era aceito sem grande contestação que o Estado fizesse de tudo, tendo de gráficas a bancos e petroleiras, e que mantivesse até órgãos desnecessários, ineficientes e redundantes nem que fosse para o único propósito de conservar empregos.

Mais um grande tabu que a crise nos forçou a confrontar foi o mito ufanista de que “o petróleo é nosso”, que se arrastava desde o segundo governo de Getúlio Vargas, nos anos 50. Como recursos naturais não têm valor algum se ninguém puder explorá-los e a Petrobrás está quebrada, não restou opção senão a derrubada da lei que obrigava a estatal a participar da exploração do pré-sal. Afinal, antes uma empresa estrangeira pagando os devidos royalties e tributos e trazendo riqueza do que um petróleo que é “nosso”, mas que fica parado no fundo do mar sem gerar receita. Isso foi uma importante quebra de paradigma, representando uma rachadura na grande muralha protecionista que isola o país do mundo e impede investimentos, competitividade e crescimento.

Outro tabu importante que ainda não foi quebrado totalmente, mas que ruiu consideravelmente foi o sistema de castas da sociedade brasileira. Por bem ou por mal, 2016 termina com menos gente acima da lei. Ainda mais políticos e empresários até ontem poderosíssimos estão atrás das grades. Além disso, com os políticos e o judiciário em evidência, pautas como o foro privilegiado, os super-salários do judiciário e outros super-poderes e benefícios de diversas corporações passaram a ser discutidas não só em mesas de bar e almoços de família, mas no próprio parlamento, o que até há muito pouco tempo era impensável. Num nível municipal, as tentativas de vereadores de proibir, limitar ou inviabilizar serviços populares como o Uber para proteger interesses corporativistas também tiveram o mérito de trazer ao debate público o poder que corporações diversas vêm impunemente exercendo sobre aqueles que deveriam defender os interesses do povo que os elegeu.

Enfim, mesmo que seja verdade que a qualidade argumentativa de todas essas discussões poderia ser melhor e que falta em muita gente um mínimo de tolerância e respeito a opiniões contrárias, o fato desses temas estarem em pauta e voga já demonstra uma maior conscientização política por parte da sociedade. Por si só, isso já é um enorme sinal de amadurecimento democrático, o que é, sem sombra de dúvidas, um grande legado positivo de 2016.


Esse post também foi publicado como editorial na edição de 07/01/2017-13/01/2017 do jornal A Voz de São João.

Fonte da imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

2 anos ago

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