Comentário sobre artigo de Ricardo Semler

Sobre o texto do Ricardo Semler, na Folha (“Nunca se roubou tão pouco”), que tem sido elogiado por muitos petistas e simpatizantes (ao menos na minha timeline).

1) Em primeiro lugar, não importa se ele é petista ou tucano. Ele dizer ser tucano não o dá mais (ou menos!) credibilidade quando critica ou elogia o governo. Fatos são fatos, independente de quem os diz.

2) Começando pelo título e grande parte da essência do artigo. Roubalheira sempre teve, ninguém nunca disse o contrário. Pagamento de propina e até compra de parlamentares não são novidade. O ineditismo da era petista não é corrupção, mas corrupção sistemática como método de governo. Ele não reconhecer isso e a grande diferença que isso faz, mostra incompreensão dele com as críticas que tem sido feitas ao PT e ao método petista de governar e de fazer corrupção. O gritante não é o fato de roubarem dinheiro público (que já é muito grave, independente da quantia), mas o fato de sustentarem a base aliada com base nisso, com pagamentos regulares para os partidos e para indivíduos, com políticos dando cargos em estatais a executivos justamente para que desviassem dinheiro para seus partidos e para algumas pessoas. Como vimos na forma como foram tratados os mensaleiros condenados pelo partido (literalmente como heróis nacionais), no sistema ético do PT qualquer coisa é vista como moralmente positiva se avança a causa do partido – e isso inclui a corrupção e a roubalheira.

3) Quanto a valores, é, SIM, a primeira vez que um escândalo único de corrupção chega a valores tão altos em tão pouco tempo (tem um mero gerente que vai devolver quase 300 milhões, imaginem o que ele NÃO vai devolver e o quanto deve ter sido desviado por gente mais alta na hierarquia). Se escandalizar com isso não é loucura. Loucura é tratar como se fosse normal. E, como vimos essa semana, isso está se mostrando apenas a ponta do iceberg – já estão aparecendo falcatruas em outras estatais. Em seu texto, Semler compara suposta roubalheira de um trilhão feita em DÉCADAS e em vários casos separados com o que ocorreu somente em UMA ÚNICA EMPRESA em um período muito mais curto de governo (de 2003 até hoje). Além disso, não dá sustento a seu argumento: de onde vem esse número? Que outros casos de corrupção descobertos chegaram a esse valor ou a valores próximos?

4) As afirmações dele sobre elite escandalizada e protestos a favor de ditadura são uma falsa leitura do zeitgeist e uma mentira descarada – os protestos simplesmente não foram a favor de ditadura. É óbvio que teve um que outro gato-pingado defendendo essas causas, mas extremistas tem em qualquer lugar e nem de longe falavam pelas pessoas que protestavam, que andavam com placas de “liberdade”, “imprensa livre”, “impeachment”, “fora PT”, “fora Foro de SP” (além de um pequeno grupo, hilariamente, com uma faixa “Olavo tem razão”).

Por sinal, por que essas pessoas são tratadas como golpistas inimigos da pátria e aqueles que marcham em passeatas do MST e MTST distribuindo panfletos abertamente pedindo a transformação do Brasil em Cuba (!) são praticamente ignorados? Não seria golpista querer transformar o país numa ditadura comunista? Por que os extremistas “de um lado” são notícia, e os do outro não? O fato desses protestos de extrema esquerda com esse tipo de pauta terem se tornado lugar comum não torna essa pauta menos absurda. A causa “comunista” é, francamente, tão ridícula e claramente absurda quanto pedir golpe militar.

5) Quanto ao fato da Dilma ser a presidente durante tudo isso, é obviamente verdade. Foi eleita, e está lá. Mas a autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal não vem dela, mas da constituição. A presidente não tem poder de parar ou direcionar investigação ou mesmo mandar investigar nada (até por que ela própria pode ser alvo de investigação!).

Na verdade, o governo do PT tem feito tudo o possível para ATRAPALHAR a investigação, vide o espetáculo que foi pra criar as CPIs (lembram do empenho da Gleisi Hoffman? Depois veio a público que ela recebeu 1 milhão de Alberto Youssef), a farsa que elas se tornaram e a recente tentativa do ministro da justiça José Eduardo Cardozo de afastar investigadores da PF usando como desculpa o fato deles terem manifestado em grupo privado no Facebook que votaram no Aécio (mesmo que eles tivessem se manifestado publicamente, é direito deles – ainda há liberdade de expressão no país). As investigações estão ocorrendo por mérito da PF e do juiz Sérgio Moro, APESAR do governo, e não por causa dele. Dilma fala agora de investigar até o fim, custe o que custar, doa a quem doer, mas não é como se ela pudesse dizer outra coisa – o mínimo que pode fazer é tentar blindar a si própria e ao planalto, mostrar publicamente que não é conivente. E talvez o discurso cole, como colou quando ela se viu forçada a demitir uns 6 ministros por corrupção nos primeiros meses da primeira gestão. Afinal, na época o povo rapidamente esqueceu que eles estavam ali porque foram indicados por ela própria (vários por sugestão do Lula) e que ela foi forçada a demiti-los por pressão da imprensa, não por investigação ou iniciativa do governo. Enfim, se Dilma pessoalmente está envolvida em algumas dessas articulações de tentar atrapalhar a operação Lava Jato e proteger os “companheiros”, não sei, mas muita gente grande do governo e base aliada explicitamente está.

6) A afirmação subentendida no texto e repetida pelo PT de que agora se investiga mais e, portanto, se descobre mais corrupção simplesmente não se sustenta. Como dito acima, a PF é autônoma – sua atuação não depende de quem está no poder. Como afirmou Joaquim Barbosa: “não é a presidente da República que manda prender. Ela tem, no máximo, poderes para não interferir na atuação do órgão”. Durante o governo FHC, entretanto, não há evidências de que isso tenha ocorrido. Durante o governo petista, por outro lado, evidências abundam de que HOJE mesmo o governo trabalha ativamente para interferir, tentando, por exemplo, atrapalhar a investigação do escândalo do petrolão.

7) A tentativa de Semler em relativizar a corrupção cometida nos contratos com o governo com pequenas corrupções do dia-a-dia é um não-argumento. Em primeiro lugar, é uma generalização grosseira – nem todas as pessoas se comportam assim. Em segundo lugar, há uma questão de escala e mesmo de propósito. Um assalto bilionário a uma estatal para permitir um projeto de poder é absurdamente mais grave do que “dar uma cervejinha para um guarda” – que se coloque as coisas em suas devidas proporções! Ambos os casos são, sim, “corrupção”, mas de natureza e escala diferente – não são coisas que possam ser medidas com a mesma régua. Isso é pura estratégia retórica dele para tratar como normal e comum algo que é completamente absurdo.

8) A comparação do comportamento corrupto com o “volume morto” é inapropriada ao contexto e feita de má fé ou baseada em ignorância, além de uma cutucada gratuita no governo Alckmin. Começa que volume morto não é barro, é água e água como qualquer outra. Tem esse nome infeliz, sim, mas na realidade é só um (no caso de São Paulo, dois, se não me engano) reservatório de emergência para ser usado exatamente em situações como aquela que São Paulo vive atualmente. Todo o terrorismo que vem sido feito a respeito do volume morto tem vindo da ANA, cujo presidente Vicente Adreu é oriundo da CUT e ocupa o cargo por indicação política e não técnica (ou seja, ele não entende nada de água e da situação de São Paulo, é simplesmente um militante petista). Há muito que pode ser dito e criticado sobre a forma como o governo estadual e federal tem lidado com a crise hídrica, mas isso nada tem a ver com o petrolão (assunto principal do artigo) e, como tudo, tem que ser discutido com responsabilidade, com base em fatos e não em slogans partidários.

9) Minha impressão sobre esse texto, em geral, é de que ele não passa de uma tentativa de usar retórica para repetir todos os slogans do PT com uma fachada de “moderação” para tentar fazê-los mais “palatáveis”. Para mostrar como é moderado, o autor se diz tucano, diz que não votou na Dilma por ser contra a conivência do governo com corrupção, etc. Mas logo começa a repetir as trupes de sempre: elite, nordeste, agora se investiga mais, Miami (!), etc., e nenhum dos argumentos dele se sustenta. Mas é a isca perfeita para ser espalhado por aí por petistas e simpatizantes que se julgam “imparciais” (como o que está ocorrendo), fazendo assim um grande desserviço aos fatos, à boa argumentação e a quem se importa com essas coisas.

4 anos ago

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