Observações sobre as eleições de 2014

Algumas observações pós eleitorais:

1. A campanha foi suja, mas Dilma foi reeleita legitimamente. E não, a culpa não é do nordeste.

2. A oposição perdeu a eleição, mas por muito pouco. Ela saiu mais forte e unida que nunca. Isso é bom para a democracia.

3. Lula perdeu força. Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e Alexandre Padilha, os três governadores que tentou emplacar no Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente, foram ignorados pelo eleitorado.

4. Números ruins sobre miséria, desemprego e desmatamento, que foram segurados pelo governo petista para não ser usados na eleição, a qualquer hora devem ser divulgados.

5. Não acuso o TSE de ter favorecido partido algum, mas ter em sua composição dois ex-advogados do PT (Dias Tóffoli e Admar Gonzaga) é altamente questionável em uma eleição que tem o PT como um dos pleiteantes. Vale lembrar que Dias Tóffoli integra não só o TSE (o qual também preside), como também o STF, e que durante o julgamento do Mensalão ele não só não se declarou impedido de julgar seus ex-clientes, como votou consistentemente de forma favorável aos réus.

6. Direito de resposta concedido à presidente Dilma Rousseff pela reportagem publicada pela revista Veja foi concedido por Admar Gonzaga, citado acima.

7. Tentativa de impedir a revista Veja de divulgar a reportagem sobre o que disse Alberto Youssef sobre Lula e Dilma é preocupante e inflama a ideia do PT de “controle social da mídia”. Foi, sim, uma tentativa de censura. A revista já disse que vai recorrer ao STF e, se a constituição for de fato seguida, vai ganhar a causa.

8. A acusação a revista de “golpe” e de tentar manipular eleições não tem sustentação. Imprensa livre significa imprensa que pode publicar o que quiser, quando quiser – independente se é conveniente ou não para qualquer partido político. Se o que foi publicado for falso, que a revista seja processada pelos interessados. Como confirmado pelos jornais Folha de São Paulo e Estadão, entretanto – a reportagem é verídica: Alberto Youssef realmente disse que Lula e Dilma sabiam do esquema do Petrolão. Se é verdade o que disse Youssef, é problema dele, não da revista. O que ele disse é de interesse público e qualquer órgão de imprensa responsável ao ficar sabendo do fato tem a obrigação ética de divulgá-lo. Imprensa que não incomoda não está fazendo seu trabalho.

9. Se as informações dadas por Youssef se comprovarem, o novo governo de Dilma vai passar por uma crise de proporção ainda maior que a do Mensalão, com risco real de ser aplicada a Lei 1079 (impeachment). É ruim para o país, é ruim para a presidente e é ruim para o PT.

10. Dilma em breve vai ter que nomear mais um ministro para o STF e isso é preocupante. Espero que o congresso faça uma sabatina real para impedir maior partidarização do supremo. Dado o histórico dessas sabatinas, é muito improvável que seja. Um Supremo partidário quebra o equilíbrio e independência dos poderes e não é saudável para a democracia.

11. TSE se manifestou a favor de proibir agressões nas próximas eleições. Acho isso questionável, devido a subjetividade de definir o que é uma agressão e por ser uma forma de censura. Eu conseguiria entender regras quanto à forma, para evitar excesso de marketing eleitoral, mas não consigo apoiar regulamentação do conteúdo.

12. Discurso de posse da Dilma teve trechos “estarrecedores”: 1) depois de uma campanha em que ela e Lula acusaram quem não vota no PT de ser elitista, nazista, homófico, racista, etc., ela fala que o país não está dividido, o que é negar a realidade; 2) eleição foi ganha por muito pouco e não foi feito nenhum aceno àquela metade do país que pensa diferente do lado ganhador – ou seja, Dilma sinalizou continuar governando só para aqueles que votaram nela, continuando a antagonizar quem pensa diferente; 3) ela mostrou desrespeito ao legislativo ao insistir na ideia de plebiscito para reforma política que ele antes havia negado.

13. O mundo continua e a economia vai continuar a ir mal se o governo não mudar radicalmente de direção. Vamos ter que esperar uma crise ou Dilma vai ser humilde o suficiente para reconhecer os próprios erros e mudar de rumo? Infelizmente, por seu discurso, a presidente parece sinalizar uma preferência pela continuidade do modelo atual.

4 anos ago

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