Declarando o voto

Não odeio o PT, nem os petistas e não acho que existe voto certo ou errado. Cada um vota de acordo com seus próprios critérios e, por isso, todas as opções são válidas. Acho, inclusive, que o PT fez coisas boas em seus 12 anos no poder. A transformação dos programas sociais criados durante o governo FHC no Bolsa Família e a sua subsequente expansão realmente ajudaram a tirar muita gente da miséria e a colocar mais crianças na escola. A volta atrás de Lula em todo o seu discurso tradicional e a decisão dele de manter o modelo econômico consolidado no segundo governo FHC também foram importantes, tendo sido ao mesmo tempo atos de coragem e atitudes responsáveis. Meu voto, entretanto, não vai para o PT.

O PT e o PSDB são bem mais similares do que as campanhas fazem parecer. Ambos tem origem na esquerda e ambos foram mais para o centro com o passar dos anos. É tão falso dizer que o PSDB é fascista e pro-rico, como dizer que o PT é comunista e pro-pobre. O mundo não é tão simples. As principais propostas de ambos continuam parecidas e ambos defendem muitas das mesmas bandeiras – forte atuação do governo na economia, muitos projetos sociais, defesa dos direitos das minorias (para os esquecidos, os programas que se tornaram o Bolsa Família e as políticas de ação afirmativa tiveram origem no governo FHC), entre outras. Até mesmo o passado de vários integrantes de ambos partidos é similar, com muitas pessoas de ambos tendo participado da luta (armada ou não) contra a ditadura militar, normalmente vinculados a movimentos de esquerda ou mesmo comunistas. As poucas diferenças que de fato existem entre o PT e o PSDB, entretanto, são muito significativas.

Para mim, a principal dessas diferenças tem a ver com democracia. Democracia é um sistema que precisa de situação e oposição fortes, com um verdadeiro debate no qual cada lado cede de vez em quando para que se chegue num caminho do meio. Democracia existe com base na tolerância ao intolerável – cada pessoa tem direito de ter sua opinião e esse direito é sagrado, por mais repugnante que tal opinião seja. O PT, apesar de adorar usar a palavra “democracia”, não parece ter entendido o que ela significa. Se de fato entendeu, não gosta do significado. Atenção: não digo isso porque acho que o PT é “do mal” – acho até que os objetivos de muita gente do partido podem ser nobres. Nem mesmo penso que o PT representa o fim da, ou mesmo um risco para, a democracia brasileira se Dilma for reeleita (acho que as instituições já são fortes demais para isso). Entretanto, os meios que o PT escolheu para chegar a seus objetivos não são de natureza democrática e isso fica evidente pelo discurso e prática dos integrantes do partido.

Sobre o discurso, basta ver como o PT caracteriza a oposição, tratando-a sempre como vilões que querem o mal para o Brasil (independente das semelhanças de programas e bandeiras que venham a ter com o próprio PT). O PT cria um mundo cartunesco onde todos os outros são “elitistas”, “reacionários”, “fascistas”, “de direita” ou – meu favorito – “neoliberais” (este último é um termo sem definição precisa, significa simplesmente alguém de quem o PT não gosta). Esses vilões, segundo Lula, são inimigos que devem ser “expurgados” e não adversários a serem derrotados. PT quer ser governo sem que exista uma oposição. Se vê como partido único, condestável. Isso não é uma visão democrática e não é compactuada pelo PSDB.

O PT também não parece entender o papel da imprensa em uma democracia. Defende a imprensa livre, desde que publiquem só aquilo que o partido quer (Dilma inclusive declarou absurdamente que papel da imprensa não é investigar, é divulgar). Se algum órgão de imprensa publicar algo desfavorável ao PT, tal órgão é acusado de ser um “golpista” que atua em conluio com a direita conservadora fascista reacionária (por mais incrível que pareça). Ao propor coisas como o “controle social da mídia” (leia-se, censura), o PT deixa evidente sua incompreensão de que em uma república democrática a imprensa cumpre o essencial papel de permitir que o eleitorado fiscalize seu governo e que para isso precisa ser independente e livre. O papel da imprensa é justamente pegar no pé do governo, e não fazer publicidade para ele – não importa que partido esteja no poder.

As ações do PT, por sua vez, demonstram a incompatibilidade do pensamento petista com os princípios republicanos. O PT parece ter um pensamento bem utilitário, acreditando que os fins justificam os meios – para atingir a meta nobre, qualquer ação é válida. Democracia, entretanto, é tanto sobre os resultados quanto sobre o processo. E o devido processo democrático envolve passar pelas instituições republicanas, que não podem ser fantoches de um partido, por mais bem intencionada que seja sua agenda. O PT, entretanto, parece encarar as instituições que ele não domina completamente (como os poderes legislativos e judiciário) como meros obstáculos a serem ultrapassados a qualquer custo. Essa filosofia tem implicações práticas muito sérias na forma como o PT geriu o país após ter assumido o governo. Tivemos, por exemplo, esquemas como o Mensalão, que foi uma tentativa de passar por cima do congresso através da compra votos dos parlamentares, tornando o poder legislativo ainda menos representativo do que já seria ao natural. Não bastasse isso, o PT ainda tentou desmoralizar o STF e aparelhá-lo com ministros-militantes para tentar evitar a condenação dos petistas graúdos envolvidos nesse esquema.

Para avançar sua agenda, o partido considera válido mesmo o uso da corrupção. Novamente, isso é demonstrado por fatos: ao invés de serem tratados como os criminosos que são, os corruptos do partido (julgados, condenados e presos) foram tratados por ele como heróis nacionais. Para o PT, o problema do Mensalão não é que ele existiu, mas que foi descoberto – tanto é que o partido repetiu o mesmo esquema em uma escala ainda maior (envolvendo agora bilhões de reais ao invés de milhões), como podemos ver no recém descoberto escândalo da Petrobrás, que ainda demonstra a irresponsabilidade do partido com a coisa pública.

Não só a corrupção é válida pelo pensamento do PT, como também a mentira. Historicamente, vemos isso nos dossiês falsos criados pelo PT para vincular membros da oposição (ou parentes deles, como Ruth Cardoso, esposa de FHC) a escândalos e impropriedades que não cometeram. Mais recentemente, basta olharmos a campanha petista para a reeleição de Dilma. Ao invés de fazer uma campanha combatendo propostas que Aécio (e anteriormente, Marina) de fato tem, o PT criou um inimigo fictício. Na tentativa de assustar o eleitorado, disse absurdos, como que o PSDB pretende acabar com o Bolsa Família (ilógico de ponto de vista eleitoral e dado o histórico do partido), que pretendia e pretende privatizar a Petrobras (nunca quis – infelizmente, ao meu ver), que a inflação era maior e descontrolada no governo FHC (mentira deslavada – através do Plano Real, ao qual o PT se opôs, FHC foi o responsável por levar a inflação de mais de 900% a cerca de 7%, também tirando 40 milhões de pessoas da pobreza no processo), que a independência do Banco Central proposta por Marina tiraria comida do prato dos pobres (não existe essa relação de causalidade, isso foi puro terrorismo eleitoral), que manter a inflação baixa acarretaria num desemprego de 15% (novamente, não são coisas relacionadas) e que Armínio Fraga vai destruir a economia ao reimplantar o tripé macroeconômico (mentira, além de ignorarem o fato de que Armínio assumiu o Banco Central com uma expectativa de inflação de 40% e conseguiu fazer com que a inflação de fato ficasse em 9%). Além disso, tentou destruir a reputação dos candidatos opositores com calúnias, chamando Aécio de “cheirador”, “playboy” e “filhinho de papai”, acusando-o de agressão à mulheres e de não fazer a própria cama aos 17 anos (!) e tentando rotular Marina como homofóbica. Esse tipo de atitude não é democrática, pois não mostra aos eleitores os contrastes reais entre o projeto de governo do PT e aquele dos outros partidos – o eleitor acaba votando em um PT que não existe e contra uma versão fictícia da oposição.

Toda essa linha de pensamento seguida pelo PT, de se julgar como único partido válido e acreditar que qualquer coisa pode ser feita para atingir seus objetivos, fez com que, uma vez assumido o controle do poder executivo, ele se apropriasse do governo, fazendo como fez com sindicatos, organizações estudantis, movimentos sociais e até mesmo ONGs. Toda a estrutura pública passou a ser usada para benefício de seus integrantes e para a implantação de sua ideologia, com ministérios, secretarias e outros cargos governamentais e em empresas estatais sendo distribuídos inescrupulosamente entre petistas e aliados de forma a conseguir apoio político e facilitar desvio de dinheiro. Isso é o tão falado aparelhamento do Estado e é, sim, muito grave, pois significa que o PT usa o governo para servir a si próprio e não ao povo que o elegeu. Além disso, tem um efeito prático muito maléfico para o país: um setor público demasiado inchado e ineficiente.

E aí está outro problema que vejo nos governos petistas: a gestão. O primeiro governo Lula foi uma boa surpresa. Sua volta atrás sobre o Bolsa Família (inicialmente era contra; pregava o Fome Zero, que nunca saiu do papel) e a combinação da expansão desse programa com a manutenção do tripé macroeconômico (metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante) do segundo governo FHC aliados a um bom momento internacional permitiu com que a economia brasileira crescesse bastante, tirando 50 milhões de pessoas da pobreza. Como resposta à crise internacional de 2008, entretanto, Lula e Guido Mantega, seu ministro da fazenda, resolveram substituir o tripé macroeconômico pela chamada “Nova Matriz Econômica”, que continua até hoje. Caracterizado pela expansão fiscal, crédito abundante a juros subsidiados (ou seja, estimulo a consumo) e taxa de câmbio controlada, esse novo modelo foi inicialmente eficiente para impedir que a crise chegasse com tudo ao Brasil, mas sua permanência acabou por ter efeitos desastrosos, com um total abandono da responsabilidade fiscal. Os resultados são o que vemos hoje: inflação alta (acima do teto da meta), baixo crescimento (o pior desde Floriano Peixoto, há mais de 100 anos) e juros altos (os mais altos do mundo). E o governo petista insiste no erro, culpando uma crise internacional que não existe mais (o resto do mundo está em lenta recuperação desde 2008) e maquiando números, fazendo o que se chama de contabilidade criativa para fazer parecer, por exemplo, que tivemos mais exportações do que de fato tivemos. Para lidar com os problemas, que mal são reconhecidos, há somente soluções paliativas, como o controle artificial dos preços de energia e combustíveis para conter a inflação. Esse excesso de intervencionismo e atuação errante do governo acabou por criar um ambiente hostil para negócios, afastando investidores nacionais e estrangeiros, que preferem atuar em mercados com regras mais bem estabelecidas. Quem perde com isso não é a elite rica e os grandes empresários, mas o povo: se a economia vai mal, menos riqueza é gerada, as pessoas perdem poder aquisitivo e há menos recursos para investir em programas sociais e outros setores importantes.

As trapalhadas do governo petista na economia infelizmente não foram restritas ao modelo escolhido – ações práticas também deixaram a desejar. Investimentos em infraestrutura, por exemplo: as estradas, portos e malha ferroviária são um horror, encarecendo o Custo Brasil (o custo de fazer negócios no Brasil). Foram prometidas muitas obras (incluindo os famosos PACs), com o governo afirmando que várias (principalmente as de mobilidade) ficariam prontas até a Copa de 2014. No final, grande parte foi abandonada (lembram do trem bala?), outras tiveram seu escopo reduzido, praticamente todas atrasaram e custaram mais do que o previsto (transposição do rio São Francisco e Abreu e Lima sendo grandes exemplos) e algumas ainda nem começaram a sair do papel (milhares creches e escolas, entre muitas outras). Apesar de várias dessas obras aparecerem no material publicitário do PT, as que foram concluídas no mundo real, foram construídas em outros países, como o inexplicável porto de Mariel, em Cuba, construído para beneficiar empresas aliadas do governo (como a Oderbrecht) e a ditadura de Fidel Castro e cujos detalhes foram incompreensivelmente classificados como segredo de estado.

Além da má gestão da economia e falta de investimentos em infraestrutura, o governo petista pecou ao não fazer reformas que o país urgentemente precisa, como no sistema tributário e na legislação trabalhista. O atual sistema tributário é antiquado (reformado pela última vez nos anos 60) e ineficiente, penalizando principalmente os mais pobres (que não pagam impostos sobre o lucro, mas arcam com os mesmos impostos indiretos que os mais ricos) e empresas de pequeno porte (que pagam fortunas de impostos para qualquer coisa e ainda precisam gastar dinheiro com profissionais especializados em navegar na labiríntica legislação tributária, atrapalhando seu crescimento e contribuindo à não-geração de empregos). As leis trabalhistas, por sua vez, são engessadas e também antiquadas, sendo as mesmas desde a época de Getúlio Vargas (há 60 anos). Essas áreas precisam de um choque de modernidade.

Áreas cruciais como educação, saúde e segurança também foram deixadas de lado pelos petistas. Ao invés de oferecer soluções reais para os problemas dessas áreas, o governo do PT implantou somente projetos demagógicos, populistas e paliativos, muitas vezes mirando o alvo errado. Como resultado das políticas do partido para essas áreas, tivemos aumento do analfabetismo, redução do número de leitos nos hospitais e, após 12 anos de PT, mais de 50 mil assassinatos por ano no Brasil. Mesmo os projetos sociais dos quais o PT tanto se orgulha têm problemas sérios que são ignorados pelo partido: o Bolsa Família, por exemplo, colocou mais crianças nas escolas, mas o efeito prático disso é limitado devido à falta de qualidade dessas escolas, de forma que o programa tem uma porta de entrada, mas não tem nenhuma de saída, resultando em pessoas que se tornam eternas dependentes do governo.

Outra área para a qual não há desculpa é a política externa. A posição tradicional do Itamaraty, até a posse de Lula, sempre foi de neutralidade e respeito aos direitos humanos. Com o PT, nossa política externa passou a ser pautada pela ideologia das esquerdas fascistoides latino-americanas. Passamos, por exemplo, a dar importância desproporcional a Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia e outros países de governos ditos “socialistas”, fingindo que não vemos os inúmeros abusos dos direitos humanos cometidos pelos governos desses países enquanto condenamos os Estados Unidos e aliados por qualquer coisa. E essa ideologia ilógica também teve consequências mais práticas: nos prendemos num Mercosul comprometido, deixando que países como Venezuela e Argentina pautem que parcerias internacionais podemos fazer. Como consequência, os únicos acordos comerciais feitos no governo Dilma foram com Palestina (que nem é um país!) e Israel. Ao invés de acompanhar países do Bloco do Pacífico, como Chile, Peru e Colômbia, que estão em trajetória ascendente, com bom nível de crescimento, preferimos ficar presos a países quase quebrados só porque seus governantes são ideologicamente irmãos ao PT.

Enfim, não voto no PT porque eles conseguem combinar desrespeito à democracia e às instituições republicanas com uma ideologia retrograda e nociva aos interesses do país e uma total incapacidade de gestão baseada em medidas auto-serventes, discurso demagógico populista e mau uso e privatização (para o partido) da máquina pública. Não acho que uma eventual vitória da Dilma é o fim do mundo, mas penso ser, sim, um grande passo na direção errada e acredito que quem sofrerá mais as consequências disso é quem tradicionalmente mais sofreu com governos irresponsáveis: a população mais pobre.

Apesar de não concordar com tudo o que propõe Aécio Neves e com todas as bandeiras defendidas pelo PSDB, tenho convicção que ele representa uma virada na direção certa. Quando estava no poder, o PSDB demonstrou muito mais apreço pela democracia e suas instituições. Sempre houve antagonismo contra o PT, mas nunca foi pregada sua destruição – ao contrário do que faz o PT hoje com quem o opõe. O PSDB inclusive auxiliou na transição ao governo Lula, fazendo de tudo para tranquilizar o mercado e ajudando Lula a compor sua famosa “Carta aos Brasileiros”. Além de demonstrar respeito à democracia, Aécio propõe importantes correções, como um reestabelecimento do tripé macroeconômico, uma reforma tributária e uma reforma política que incluiria o a implantação do voto distrital, uma medida que julgo importante por aproximar mais o eleitor do eleito, aliviando a crise de representatividade que hoje enfrentamos no congresso. Aécio também pretende enxugar a máquina pública e profissionalizar sua gestão, tornando-a mais barata e eficiente e acabando com o grande balcão de negócios de cargos feito pelo PT (o que também naturalmente diminuiria a roubalheira). É evidente que concessões de cargos por apoio político faz parte do jogo em uma democracia (ainda mais uma com tantos partidos quanto a nossa), mas isso pode ser feito de forma técnica e programática. Como se sabe, também, ninguém governa no Brasil sem o PMDB – mas também não é necessário governar com o PMDB de José Sarney e Renan Calheiros, e Aécio parece estar ciente disso. Se ele vai de fato conseguir fazer tudo o que propõe, não sei, mas estou disposto a lhe conceder o benefício da dúvida, pois o PT já esgotou qualquer tipo de boa vontade que eu poderia ter.

4 anos ago

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